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Estudo Histórico, Literário e Linguístico da obra Commentarii rerum gestarum de Damião de Góis

Estudo Histórico, Literário e Linguístico da obra Commentarii rerum gestarum de Damião de Góis

Maria José Ferreira Lopes, Estudo Histórico, Literário e Linguístico da obra Commentarii rerum gestarum in India citra Gangem a Lusitanis anno 1538 de Damião de Góis, 1st ed., Humanidades (Braga: Axioma - Publicações da Faculdade de Filosofia, 2017), DOI 10.17990/Axi/2017_9789726972792

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Disponibilidade: Disponível em Setembro 2017

  • Estudo Histórico, Literário e Linguístico da obra Commentarii rerum gestarum in India citra Gangem a Lusitanis anno 1538 de Damião de Góis

    Type Book
    Author Maria José Ferreira Lopes
    DOI 10.17990/Axi/2017_9789726972792
    Rights © 2017 Aletheia - Associação Científica e Cultural
    Series Humanidades
    Edition 1
    Place Braga
    Publisher Axioma - Publicações da Faculdade de Filosofia
    ISBN 978-972-697-278-5 (paperback); 978-972-697-279-2 (eBook)
    Date 2017
    Language Portuguese and Latin
    Sinopse Damião de Góis, famoso humanista e aristocrata orgulhoso, foi marcado pela formação na corte de D. Manuel, onde interiorizou o entusiasmo religioso e patriótico e a política da Coroa. Na rica feitoria de Antuérpia e em subsequentes missões diplomáticas, obteve contactos ao mais alto nível e observou a política europeia e os detractores da Expansão Portuguesa; também conheceu personalidades como Erasmo de Roterdão e Pedro Bembo, para ele um modelo de humanista-diplomata. Os estudos universitários preparam-no para solicitações literárias da Coroa Portuguesa. Assim sucedeu com o anúncio da vitória no Primeiro Cerco de Diu (Commentarii rerum gestarum in India citra Gangem a Lusitanis anno 1538), que, de acordo com evidências internas e externas, teve por fonte o manuscrito da testemunha Francisco do Couto (“Cerco e guerra de Diu”): partilham a perspectiva e sequência na apresentação dos acontecimentos, nomes de guerreiros e até erros; externamente, destaca-se a rapidez da viagem da fonte para Portugal, e do envio do texto para Góis, em Lovaina. Ele adaptou e traduziu, em cerca de dois meses, o relato de acordo com o estilo humanístico e a defesa dos interesses de Portugal, publicando-o em Setembro de 1539, dez meses depois do cerco. Este esforço parece indicar um interesse do rei em divulgar rapidamente e com eficiência uma notícia tão ansiosamente aguardada na Europa, aproveitando o prestígio pessoal e os contactos do humanista, o que corrobora a teoria de António José Saraiva sobre o papel de Damião de Góis como agente diplomático. A notitia goisiana da vitória de Diu integra-se, como narratio probatória, numa obra tripartida enquadrável no discurso partidário da Retórica clássica. A carta-dedicatória a Pietro Bembo, árbitro da situação, é um exordium político-religioso, desenvolvido na Disceptatiuncula (suasoria e invectiva) que encerra (peroratio) a obra. A estrutura textual aparenta grande organização, o que, associado à breuitas da narratio, cria verosimilhança. É patente um notável domínio do latim, e a imitatio está subjacente ao uso de fontes clássicas como modelos.
    # of Pages 580
    Date Added 27/07/2017, 09:58:00
    Modified 27/07/2017, 11:25:17

    Palavras-Chave:

    • Damião de Góis,
    • Expansão Portuguesa,
    • Francisco do Couto,
    • Humanismo Renascentista,
    • Imitatio,
    • Primeiro Cerco de Diu

    Resumo:

    • Damião de Góis, figura destacada do Renascimento Português, foi um aristocrata de raízes antigas e orgulhosas, a quem a experiência da infância e juventude na corte de D. Manuel encheu de entusiasmo religioso e patriótico e imbuiu das ideias políticas defendidas pela Coroa. Formado para o serviço real com outras figuras que depois dominaram a administração do Rei Piedoso, a sua colocação na rica feitoria de Antuérpia e subsequentes missões diplomáticas, além de lhe darem acesso aos ambientes mais selectos do tempo, abriram-lhe os horizontes: verificou in loco as circunstâncias perigosas da política europeia, identificando detractores, normalmente interesseiros, da Expansão Portuguesa; e conheceu personalidades fascinantes, quer de intelectuais, como Erasmo de Roterdão, quer de humanistas-diplomatas, como Pedro Bembo, que certamente desejou de algum modo emular. Os estudos universitários a que se dedicou permitiram-lhe preparar-se para corresponder a solicitações da Coroa Portuguesa, a que se manteve ligado mesmo quando aparente priuatus, como a de divulgar em latim, a língua internacional da época, a vitória no Primeiro Cerco de Diu.

      Com efeito, provas internas e externas justificam a atribuição do estatuto de fonte dos Commentarii rerum gestarum in India citra Gangem a Lusitanis anno 1538 ao manuscrito da testemunha presencial Francisco do Couto, intitulado “Cerco e guerra de Diu”, pertencente aos arquivos da Casa Fronteira e Alorna e publicado por Luciano Ribeiro há cerca de quarenta anos. Internamente, salienta-se a adopção da mesma perspectiva e sequência na apresentação dos acontecimentos, e a repetição de nomes próprios e até de erros no mesmo contexto, de que sobressai o equívoco sobre a morte de Paio Rodrigues de Araújo; no âmbito externo, destaca-se a rapidez do embarque de Francisco do Couto para Portugal, e do envio do texto para Lovaina, onde se encontrava Góis, que recebeu outras informações, provavelmente do lado do Levante. A mesma celeridade levou o humanista a traduzir e adaptar o relato, em cerca de dois meses, de modo a enquadrá-lo nos padrões de exigência humanísticos e na defesa dos interesses de Portugal; tendo conseguido publicá-lo em Setembro de 1539, dez meses depois do final do cerco. Todo este esforço parece indicar um interesse da parte do próprio rei em divulgar rapidamente e com eficiência uma notícia tão ansiosamente aguardada na Europa, aproveitando o prestígio pessoal e os contactos do humanista de Alenquer, o que corrobora a perspectiva de António José Saraiva sobre o eventual papel de Damião de Góis como agente diplomático de D. João III.

      Por sua vez, a notitia goisiana da vitória de Diu integra-se numa obra tripartida enquadrável no discurso partidário da Retórica clássica. A carta-dedicatória funciona como um exordium, que lança questões político-religiosas, desenvolvidas na Disceptatiuncula (suasoria e invectiva) que encerra (peroratio) a obra. Pietro Bembo, destinatário da carta e da peroração, é o árbitro da situação, a quem Góis pede ajuda (petitio) como figura capaz de influenciar as opiniões. A história do cerco pode portanto ser vista como narratio probatória, no desenvolvimento de uma tese política correspondente às perspectivas oficiais da Coroa Portuguesa. Toda a estrutura da obra aparenta grande organização, o que, associado à breuitas da narratio, cria verosimilhança. É patente um notável domínio do latim, e a imitatio está subjacente ao uso de fontes clássicas como modelos, em função dos vários géneros envolvidos.