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Gramática Filosófica da Língua Portuguesa, Bernardo Lima Melo Bacelar

Gramática Filosófica da Língua Portuguesa, Bernardo Lima Melo Bacelar

Int. e Notas de Amadeu Torres, 246 págs., 1996

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Constitui uma grata tarefa para quem estas linhas subscreve, apadrinhar a reprodução fac-similada da Grammatica Philosophica e Ortographia Racional da Lingua Portugueza, da autoria de Bernardo de Lima e Melo Bacelar, que saiu dos prelos de Simão Tadeu Ferreira, em Lisboa, no ano de 1783. A presente reedição de um texto de há muito ausente do mercado livreiro tem justo cabimento na colecção dos «Subsídios» que a Academia Portuguesa da História regularmente traz a lume. Com gosto saliento que a instituição a cujos destinos presido nunca deixa de se interessar pelas obras antigas e que permanecem ignoradas no panorama cultural do nosso país. Cumpre assim explicar a razão desse apoio que torna redivivo um autor setecentista que enobreceu o idioma pátrio e deste quis fazer um veículo actuante para a integração de Portugal no fascinante mundo das Luzes.

Pouco se conhece da vida e obra de Melo Bacelar, assim como do lugar do nascimento que se presume haja sido em Chaves, num ano de 1736. Sabe-se que tomou ordens na província dos franciscanos Observantes, com o nome de Frei Bernardo de Jesus Maria, e que exerceu o sacerdócio numa vila do Alentejo. Tendo aderido ao movimento reformista da Jacobeia, incorreu na hostilidade de D. Miguel da Anunciação, bispo de Coimbra, pelo que foi preso durante oito anos, de 1769 a 1777, nos cárceres de Pedrouços. A vocação religiosa tornou-o amigo de D. Frei Manuel do Cenáculo, reformador da sua Ordem, como se depreende das cartas que lhe enviou e se guardam na Biblioteca Pública de Évora. Já então Frei Bernardo fora atraído pelas correntes do Iluminismo que o levaram a laicizar o nome em Bernardo de Lima e Melo Bacelar e, ao que tudo leva a crer, a abandonar a vida conventual.

No ano de 1783 lançou ao prelo, além da referida Grammatica Philosophica, outro trabalho de maior amplitude, como o Diccionario da Lingua Portugueza. Nele procedeu ao desdobramento de muitas palavras que Bluteau incluíra no seu Vocabulario e que eram susceptíveis de melhor tratamento, assim como ao primeiro registo de muitas outras. Ainda no ano de 1783, saiu outro livro da sua autoria, Arte e Diccionario do Commercio e Economia Portugueza, com interessantes dados estatísticos sobre a actividade do nosso País. Todavia, em data que se ignora, Bacelar seguiu para França, sabendo-se que em 1786 trabalhava na Biblioteca Real de Paris, na tradução de um manuscrito da Crónica de Idácio, que enviou depois ao bispo de Beja. A partir de então perde-se-lhe o rastro, não sendo de excluir que tivesse morrido nos dias sangrentos da Revolução Francesa ou que voltasse, entretanto, a Portugual.

No mesmo século em que os gramáticos tinham a preocupação de compendiar as línguas nacionais, crentes de que as mesmas eram o espelho da alma dos respectivos povos e, sobretudo, um transunto concreto da racionalidade humana, a Grammatica Philosophica vinha na hora própria como um manual para a instrução dos portugueses. Ortograficamente a obra radicava na tradição de Álvaro Ferreira de Vera (Lisboa, 1631), nas Regras geraes breves e compreensivas de Bento Pereira (Lisboa, 1666), nas Regras da ortographia da Língua Portugueza de Vitorino José da Costa (Lisboa, 1750), no Compendio de Ortographia de Frei Luís do Monte Carmelo (Lisboa, 1767) e, paradoxalmente, em Madeira Feijó (Coimbra, 1739). A correcta escrita da nossa língua correspondia, para Melo Bacelar, ao meio adequado para tornar melhor entendida no concerto das nações. Mas impunha-se ir mais longe, buscando as raízes de compreensão do idioma português na indagação dos seus «verdadeiros princípios». Com a enumeração dos vocábulos, havia que estabelecer o entendimento de cada palavra, dando a esta «a precisão e a clareza» devidas.

Pode afirmar-se que o Vocabulario Portuguez e Latino do Padre Rafael Bluteau (Lisboa, 1712-1728) foi uma das fontes inspiradoras de Bacelar, mormente pelo rigor do método que o douto Teatino aplicou. Mas, como bem anota o Prof. Amadeu Torres, nem sempre o nosso autor seguiu as lições concernentes à essência e à genealogia dos vocábulos. A grande preocupação, talvez demasiada, de Lima Bacelar esteve em buscar «a etimologia de qualquer palavra portuguesa, ainda a de menor importância». Não espanta assim o título de Grammatica Philosophica e Ortographia Racional que conferiu à obra, no desejo de oferecer aos leitores um instrumento «para pronunciarem e escreverem com acerto os vocabulos deste idioma». Na busca dessas raízes houve em Lima Bacelar o firme propósito de invocar as tradições helénica e romana, com primazia para a influência da Grécia, como meio de justificar a antiguidade da língua portuguesa.

[...] Uma defesa ainda mais profunda da figura de Melo Bacelar fica agora a dever-se ao Prof. Amadeu Torres, através da reedição fac-similada da Gramática Filosófica da Língua Portuguesa. Com a sua comprovada autoridade, o douto catedrático da Universidade do Minho e da Universidade Católica Portuguesa assentou pela primeira vez as linhas-mestras da obra do seu biografado. Nelas vislumbra a influência directa dos franceses Du Marsais (1729) e Condillac (1775), que defenderam princípios idênticos aos que Melo Bacelar veio a perfilhar. Do exame feito extrai-se que o gramático luso foi um ardente seguidor das correntes vindas de além-Pirinéus e que buscavam conferir um novo entendimento ao estudo da gramática e da lexicografia. A atracção da França teria feito dele um dos mais expressivos entre os primeiros representantes do espírito das Luzes no nosso País.

O Prof. Doutor Amadeu Torres pôde assim formular as seguintes conclusões acerca da obra que lhe foi possível anotar: «Sou de opinião que, sem embargo de peregrinismos linguísticos insustentáveis, cuja irreflexão a fafécia talvez explique de quando em vez, Bernardo de Lima e Melo Bacelar, superiormente erudito nas línguas clássicas, o que lhe dava azo de 'brincar' à conceitudad semântica de tantos vocábulos, não o foi menos na língua materna cuja Grammatica Philosophica o coloca na vanguarda do Iluminismo em Portugal. E se o Diccionario da lingua Portugueza andou tão longamente esquecido como aquela, nem por isso é menos verdade que se trata de um repositório lexicalmente reiquíssimo e bastas vezes desprezado por dicionaristas posteriores demasiado parcimonioso terminologicamente, sem excepção do de Morais Silva e do da Academia das Ciências de Lisboa».

Como especialista da história da língua e autor de consagrados estudos nesse domínio da sua especialização, o Prof. Doutor Amadeu Torres buscou assim colocar o nome e a obra de Bacelar no espaço histórico e cultural que lhe pertence.

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