| Abstract |
O presente trabalho tem por principal objetivo mostrar a centralidade da temática da teofania na obra de Nicolau de Cusa (1401-1464) e apresentar a evolução desta mesma temática ao longo dos seus escritos. Para tal, procederemos à análise da terminologia utilizada para descrever o processo teofânico (explicatio dei, theophania ou apparitio dei, apparitio posse ipsius) e o seu concomitante desenvolvimento a partir da hermenêutica dos nomes divinos (possest, posse, posse ipsum). Pretende também mostrar como o pensamento da teofania é aquele que melhor exprime, na filosofia cusana, a relação entre Deus e as criaturas, bem como o estatuto metafísico da própria criatura. Para isso, recorre a um exame analítico-cronológico das obras que consideramos mais pertinentes para o estudo da evolução desta temática, algumas das quais são muito pouco conhecidas no âmbito nacional: De docta ignorantia (1440), De quaerendo Deum (1445), De filiatione dei (1445), De dato patris luminum (1446), Trialogus de possest (1460), De venatione sapientiae (1463), Compendium (1463), De apice theoriae (1464). O pensamento da teofania no Cusano carateriza-se pela sua originalidade e dinamismo. Num primeiro momento, este pensamento é elaborado a partir dos conceitos herdados da tradição, particularmente da corrente do neoplatonismo cristão - Pseudo-Dionísio Areopagita, João Escoto Eriúgena e Thierry de Chartres -, que faz uso recorrente da metáfora da luz. Num segundo momento, através do desenvolvimento da metafísica do poder, Nicolau de Cusa vai cunhar uma terminologia própria e bastante original, capaz de expressar melhor o dinamismo de todo o seu sistema metafísico. Este trabalho pretende, a partir da análise das obras acima mencionadas, apresentar este percurso a fim de mostrar como a relação entre Deus e as criaturas que está implicada no processo criativo e que configura o próprio estatuto metafísico da criatura pode ser mais bem entendida na obra cusana a partir do conceito de apparitio posse ipsius. |